Num
certo dia, ainda o macaquinho era muito pequeno. Algo aconteceu no seio da sua
família. A mãe saiu para ir buscar água e nunca mais voltou.
Ninguém
soube muito bem o que se passou. Teria caído ao rio? Teria fugido daquela vida
difícil de privação, deixando para trás os três filhos e o marido? Teria sido
apanhada nalguma armadilha daquelas que a vida nos coloca? A dúvida cravou-se
na mente de quem ficou para trás. O pai não conseguia compreender, mas mais
difícil ainda era explicar aos filhos. Não conseguia explicar à irmã mais velha
porque tinha ficado sozinha a cuidar dos irmãos, porque tinha agora de assumir
um lugar que não deveria ser seu. Não conseguia explicar ao irmão do meio
porque tinha agora de fazer os trabalhos da escola sem a ajuda daquele ser que
costumava estar ali a seu lado quando voltava, ao fim do dia, para casa. E não
conseguia explicar ao macaquinho por que razão aquela cara familiar, que era o
seu símbolo de amor e carinho tinha desaparecido.
O
mundo desabava, o pai não trazia tanta comida porque não trabalhava tanto fora
de casa, mas também não dava a atenção e o amor que os filhos precisavam, como
era costume dar a mãe, não passava o tempo necessário com eles.
A
filha mais velha, sentia-se perdida, triste, sem rumo. Não compreendia porque a
mãe tinha desaparecido, não era justo o que a vida lhe tinha feito! A dúvida,
se teria sido abandonada, corroía-a por dentro não deixando espaço para dar
afeto aos irmãos e ao pai, a felicidade era agora uma rocha fria. Tinha de sair
dali e procurar um caminho, fazer-se à selva para encontrar o seu lugar...
Chegara o momento. Tal como a mãe, antes, também ela agora desaparecia. Deixou,
no entanto, um bilhete de despedida. Mesmo fugindo da vida que tinha levado até
ali, não ia conseguir viver com a culpa de deixar a dúvida no seu pai e irmãos.
Explicou o que sentia e desapareceu no meio daquela selva.
A
família que era de cinco estava agora reduzida a três.
O
pai não conseguia agora cuidar dos filhos que ainda estavam consigo. Começou a
faltar comida, o mundo de afetos que era aquele ninho morrera lentamente.
Primeiro com o desaparecimento da mãe e depois com a saída da irmã.
O
pai não conseguia cuidar dos seus filhos. Para trazer comida tinha de sair,
deixando os macaquinhos sozinhos e desprotegidos. Para os proteger, não podia
trabalhar e passavam fome. Tomou uma decisão, entregar o mais novo para ser
criado num Zoo. Lá estaria melhor – dizia o pai a si próprio. Teria outros
macaquinhos com que brincar, teria uma família que olhasse por ele. Assim fez.
Ficou apenas com o irmão do meio a seu cuidado. A separação de seu orgulho era
muito difícil, mas era para seu bem – repetia o pai a si próprio numa tentativa
vã de se convencer.
Os
anos passaram e os irmãos pouco contacto tinham uns com os outros, ou com o seu
pai. Sabiam, apenas, que a Irmã tinha mudado para uma selva diferente, mais a
sul, e que iniciara uma nova vida.
O
Irmão do meio, que tinha crescido e vivido na parte da selva ao pé da queda de
água, com pouco apoio do pai, tenha o hábito de se deslocar por caminhos
difíceis, achava que essa era a única maneira de ser aceite pelos seus amigos
da queda de água. Tantas fizera que o chefe dos macacos acabou por mandá-lo
prender numa jaula.
O
mais novo, que não conhecera a mãe – apenas se lembrava da sua cara triste, mas
meiga, crescera no Zoo e não sabia o que era ter uma família que lhe
transmitisse valores e educação. Os maus exemplos que toda a vida viu à sua
volta tornaram-no rude, agressivo e pouco simpático para os outros macacos. A
raiva que sentia de seu pai, por o ter abandonado à porta do Zoo, ainda tornava
a sua vida mais difícil.
Na
escola dos macacos, os seus colegas fugiam dele no recreio, por ele ser diferente.
Os tratadores diziam que era mal-educado e muito irrequieto – diziam que sofria
de Cafeína – e os restantes técnicos da escola empurravam-no de um lado para o
outro tentando sempre que fosse outro a estar com ele.
Quando
não estava a lutar com os colegas ou a mostrar os dentes para os tratadores, o
macaquinho estava fechado no seu mundo de pensamento, não deixando que ninguém
se chegasse. Por vezes sonhava que iria viver com a irmã mais a sul. Por vezes
achava que o pai o ia receber de volta e cuidar dele. Ou ainda, sonhava que o
irmão ia sair da jaula e os dois fariam uma viagem para bem longe daquele mundo
que o maltratava.
Não
sei se por simpatia, compaixão ou mesmo pena, a realidade é que fui um dos
poucos que se aproximou dele e lhe deu tempo para se libertar e dizer um pouco
do que sentia. Sim, sempre tive a sensação de que apenas me contou um pouco de
todo aquele sofrimento. A verdade é que mesmo comigo não se dava muito a
conhecer, talvez com medo de que também me fosse embora, talvez sabendo que
chegando ao fim do ano eu iria para outro zoo e seria mais um a abandoná-lo.


.png)






