quinta-feira, 3 de março de 2016

Diretores de agrupamento, deve o ministério nomear?


Gestao-Escolar-Curso
Todas as instituições, sejam públicas ou privadas, de maior ou menor dimensão, tem de se organizar de forma a permitir uma maior optimização dos seus recursos, tanto técnicos como humanos, e o aumento da capacidade para potenciar as suas funções e objetivos. Tomando este enquadramento como ponto de partida, percebe-se que a organização na escola é imprescindível pois clarifica quais as funções e obrigações de cada ator educativo, assim como define o rumo que um determinado agrupamento deverá seguir.

Em especial, e se defendermos uma clara descentralização de competências do Ministério da Educação, favorecendo a decisão de proximidade, em estreita articulação com a administração central, somos obrigados a admitir a importância de existirem órgãos de decisão locais fortes e que saibam muito bem o que têm de fazer e que desenvolvam projetos de valorização dos respetivos agrupamentos/ escolas alicerçados no conhecimento profundo do sistema e nas melhores práticas de gestão.
Levanta-se então a pergunta: Que tipo de administração devem ter os agrupamentos e como deve ser escolhida?
E as respostas serão certamente muitas e todas com vantagens e desvantagens. Permito-me no entanto, apontar aqui algumas opções para reflexão.
Será o caminho a existência de um Conselho Directivo constituído por um conjunto de pares que tomam as decisões por maioria?
Será ainda preferível existir um director de agrupamento que seja eleito pelo Conselho Geral? Somente pelos professores? Ou por toda a comunidade educativa?
Ou, entre outras possibilidades de escolher o modelo de gestão das escolas e que não apontei, será que deve ser o Ministério da Educação a nomear os seus directores de agrupamento?
Todas estas opções são possíveis de aplicar, assim como outras não referidas, mas importa fazer este debate, de forma aberta, sem dogmas ou preconceitos.
O ComRegras já o iniciou. Promovendo uma consulta pública, sobre qual o melhor método de eleição do Diretor de Agrupamento/ Escola. Sendo que a maioria, não absoluta, dos votantes apontam para uma eleição do director pelos Professores e Assistentes Operacionais/ Técnicos.
Importa perceber que a gestão do ensino, em especial por força de uma maior descentralização de competências, não se coaduna com uma gestão assente apenas na boa vontade de alguns professores que querem dar o seu melhor, mas que a sua principal vocação e a função em que apresentam melhores resultados é a de docente, é estando dentro da sala de aula a ensinar os seus Alunos. Um excelente professor, que se relaciona muito bem com os seus pares pode não ser um bom director.
Sendo a descentralização naturalmente o caminho a seguir, exige-se aos agrupamentos e aos seus órgãos directivos cada vez mais responsabilidade, mas também muito profissionalismo nas suas decisões operacionais e nas opções estratégicas que tomam.
O actual quadro legal que enquadra a função de director (DL 75/2008) prevê, no seu artigo 21º nº 4, quais as características que devem ter os professores para se poderem candidatar a director:
“Consideram -se qualificados para o exercício de funções de administração e gestão escolar os docentes que preencham uma das seguintes condições: a) Sejam detentores de habilitação específica para o efeito, nos termos das alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo 56.º do Estatuto da Carreira Docente dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário; b) Possuam experiência correspondente a, pelo menos, um mandato completo no exercício dos cargos de diretor, subdiretor ou adjunto do diretor, presidente ou vice- -presidente do conselho executivo, diretor executivo ou adjunto do diretor executivo ou membro do conselho diretivo e ou executivo, nos termos dos regimes aprovados respetivamente pelo presente decreto-lei, pelo Decreto-lei n.º 115 -A/98, de 4 de maio, alterado pelo Decreto-lei n.º 75/2008, de 22 de abril, pela Lei n.º 24/99, de 22 de abril, pelo Decreto-lei n.º 172/91, de 10 de maio, e pelo Decreto-lei n.º 769 -A/76, de 23 de outubro; c) Possuam experiência de, pelo menos, três anos como diretor ou diretor pedagógico de estabelecimento do ensino particular e cooperativo; d) Possuam currículo relevante na área da gestão e administração escolar, como tal considerado, em votação secreta, pela maioria dos membros da comissão prevista no n.º 4 do artigo 22.º.”
Refere ainda, no artigo 18º as competências do director (“O diretor é o órgão de administração e gestão do agrupamento de escolas ou escola não agrupada nas áreas pedagógica, cultural, administrativa, financeira e patrimonial.”).
Percebemos então que a função de director está indubitavelmente mais distante da de professor do que da de gestor. Obrigando desta forma a conhecimentos muito específicos e a formação distinta da ministrada para as componentes pedagógicas.
Neste pressuposto, não me choca que os diretores sejam colocados por nomeação direta do Ministério. Penso que este cenário até permitirá uma maior articulação entre a administração central e as administrações dos agrupamentos, e uma maior responsabilização do ministro que nomeia e do director que é nomeado.
É no entanto importante referir que um director não pode ser alguém que desconheça o contexto que envolve o agrupamento ou a escola que se propõe a dirigir. Devendo, portanto, ser escolhido de entre os quadros que a compõem e que possuam a formação necessária para o exercício das funções.
No entanto penso que mais importante do que a forma como são indigitados (eleição ou nomeação) é o seu enquadramento e as competências que apresentam para o exercício das funções que deve definir quem pode concorrer ao cargo, como de resto se encontra na legislação desde 2008.
Desta forma, separar as carreiras, criando uma de director, poderá ser um passo decisivo para aumentar a qualidade da gestão escolar no sistema público de ensino, valorizando quem tem o perfil necessário para exercer a tão necessária função de Diretor.
Venho defendendo que a valorização dos profissionais de educação e das suas carreiras é um passo fundamental para melhorar a vida e funcionalidade das escolas e por esta valorização passa também, necessariamente, a função de Diretor.
Diretores de agrupamento, deve o ministério nomear?

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pré-escolar... um imperativo educativo

Little girl playing with colorsA frequência do Ensino Pré-escolar é fundamental no lançamento das bases de um percurso educativo de sucesso. Crianças que ficam em casa até iniciarem a frequência do 1º Ciclo iniciam a sua escolarização com competências menos estimuladas e consequentemente o esforço que têm de despender para chegarem ao nível de desenvolvimento e estimulação de um aluno que inicie a frequência do pré-escolar com três anos é muito superior.
Para além das competências escolares menos desenvolvidas, a falta de interação com a multiplicidade de pares que encontra na escola limita também as competências de sociabilização das crianças. Um aluno habituado a interagir em grupo, desde tenra idade, terá muito mais facilidades em responder de forma positiva aos desafios sociais com que se deparará ao longo da vida.
Uma outra vantagem da frequência do Ensino Pré-escolar é a possibilidade de identificar atrasos no desenvolvimento numa fase ainda inicial e permitir o desenvolvimento das estratégias necessárias para levar a criança a superar as suas dificuldades ainda antes da entrada no 1º ciclo.
As vantagens para a criança que referi anteriormente e a importância subsequente do ensino pré-escolar encontram-se referidas na Lei-quadro da Educação Pré-escolar. “São objetivos deste nível de ensino promover e fomentar o desenvolvimento pessoal e social da criança assim como a sua inserção em grupos sociais diversos”. É ainda objetivo do ensino pré-escolar, conforme estatuído no seu quadro legal, “contribuir para a igualdade de oportunidades de acesso à escola e para o sucesso na aprendizagem”.
Paralelamente às vantagens diretas para a criança, também as famílias beneficiam profundamente com a garantia de que o sistema educativo está totalmente preparado para receber as suas crianças, independentemente da sua condição socioeconómica.
As exigências sociais e profissionais que se colocam hoje às famílias são uma dificuldade acrescida para que estas decidam ter filhos. Horários de trabalho alargados, famílias nucleares reduzidas e em que ambos os progenitores necessitam de trabalhar reduz a disponibilidade para ter filhos e é um entrave ao incremento da natalidade.
Partindo dos pressupostos atrás enunciados, facilmente se compreende que a universalidade do ensino pré-escolar é um imperativo que deve levar qualquer governo a desenvolver políticas de alargamento da rede.
O Ensino Pré-escolar foi durante muitos anos um “luxo” encontrado quase em exclusivo no setor privado. O ensino público não pode ter como objetivo substituir a iniciativa privada, mas tem o dever de permitir que todos possam ter acesso às mesmas oportunidades assim como garantir um ensino de qualidade.
Pré-escolar... um imperativo educativo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Formação de Professores... ontem, hoje e amanhã!

Melhores alunos podem não ser melhores professores
A formação de professores é um assunto que ao longo dos cerca de 40 anos que a nossa democracia já leva tem sofrido uma profunda evolução e uma natural adequação às exigências da modernidade.
Longe vão os tempos em que a urgência da massificação do ensino exigia uma resposta da escola em quantidade. Inviabilizando o tempo e a maturação necessária para se formar um professor antes de o colocar à frente de um grupo de alunos. Muitos dos grandes pedagogos que temos atualmente nas escolas tiveram de ser professores antes de o serem e maturar a sua prática pelo experimentalismo de fazer e sem almofada teórica para enquadrar.
Mas esses tempos ficaram lá atrás. Hoje discute-se como deve ser lançado um professor no sistema? Qual o caminho a percorrer para lá chegar? Quando e onde deve ser avaliado? Quem deve avaliar? Que competências deve possuir? Como deve ser organizada a sua entrada na profissão? Um conjunto de questões da atualidade, que têm vindo a ser respondidas ao longo dos anos e para as quais continua e continuará a ser necessária uma resposta. Hoje, em virtude do parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) mais uma vez discute-se a formação de professores.
Para se aceder à profissão, para se ter a habilitação, é necessário passar por um processo muito mais especializado do que no passado. Não só é necessário ter grau de mestre para poder exercer, como é condição obrigatória ter uma formação via ensino. Os professores que nos últimos anos saíram das universidades e politécnicos têm formações direcionadas para o ensino, não há mais engenheiros recrutados para as Matemáticas ou advogados para o Português ou a História.
Se é verdade que muitos dos bons pedagogos que temos hoje fizeram formações iniciais que nada têm a ver com o ensino, construindo a sua pedagogia, como referi anteriormente, alicerçada no saber de experiência feito. Os professores de hoje têm a obrigação de dar uma resposta cabal e muito mais sólida logo no início das suas carreiras, fruto das suas formações tanto na vertente teórica como prática.
Visto por este prisma, acredito que é competência das instituições de ensino superior, através das suas formações via ensino, ensinar e certificar que os alunos que completam as suas formações têm a qualidade e as condições necessárias para assegurar um ensino de qualidade desde os primeiros dias da sua prática. Ao Ministério que tutela o Ensino Superior compete ser um promotor de exigência e em articulação com as escolas assegurar-se que são os melhores a chegar ao sistema de educação.
A exigência sobre os futuros professores deve ser colocada, em primeira instância, durante a sua formação, é nesta fase que os candidatos e os formandos devem sentir se têm a vocação e as qualidades necessárias para serem professores. Tal como existem alunos de 20 que são péssimos médicos, péssimos advogados ou péssimos engenheiros, eu acredito que os melhores professores não são necessariamente os alunos com as melhores notas. Por isso defendo que as formações tenham uma forte componente prática, que permita enquadrar e aplicar os conhecimentos teóricos, sob a devida orientação de professores experimentados.
Numa fase formativa distinta aparece o momento de indução na carreira. Um processo que deve ser natural e devidamente maturado durante a formação do profissional, mas deve também ser o certificado final de uma formação que seja um garante de exigência e que se afirme pela qualidade em todas as suas áreas. Não podemos esquecer que um pedagogo não é um livro com processador de voz, não lhe basta o conhecimento teórico de uma matéria. Tem de ter a capacidade de a organizar, sintetizar e comunicar de forma a ser recebida por terceiros. Tem ainda de ter a humanidade que lhe permita adaptar-se às necessidades da criança ou jovem com quem interage.
Assim sendo e em resumo, a formação e habilitação para a docência são e devem continuar a ser competência exclusiva das instituições do Ensino Superior. As formações devem revestir-se de uma vertente prática forte, que privilegie a experimentação, a aplicação dos conhecimentos teóricos em contexto e que seja um reforço dos patamares de exigência a alcançar pelos candidatos a professor, culminando com um ano de iniciação (indução) totalmente em contexto.
Formação de Professores... ontem, hoje e amanhã!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ensino Municipal

Ensino Municipal
Ensino municipal ou municipalização da educação é um caminho visto por alguns como uma oportunidade para tornar a escola pública mais eficaz e mais eficiente. Mas, por outros, este movimento de transferir responsabilidades do ministério da educação para as autarquias é encarado como uma fragmentação do sistema que naturalmente o enfraquecerá.
Existe um conjunto de responsabilidades que pertencem ao ministério e que uma gestão de proximidade tornará mais eficaz. Não tenho dúvidas que a gestão do parque escolar no que respeita à sua manutenção é perfeitamente enquadrável nas funções de uma autarquia, como de resto já acontece em muitos concelhos. Ou que os profissionais sem funções pedagógicas poderão integrar os quadros de pessoal das Câmaras Municipais. Desde que esta transferência de responsabilidades seja acompanhada tanto do respetivo envelope financeiro como das condições de gestão humana que permitam às autarquias responder de forma positiva. Se não existir reforço financeiro dos orçamentos camarários e uma revisão profunda do espartilho legal que reduz drasticamente o poder de decisão e a autonomia dos municípios, então tratar-se-á de um desinvestimento profundo na educação.
A escola está naturalmente integrada numa comunidade que a envolve e que exige respostas para as suas necessidades. Desta forma, penso que a descentralização de competências em áreas em que os municípios têm melhor conhecimento da realidade e melhores capacidades de resposta poderá ser positivo. No entanto este passo deve ser na medida certa (cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém).
Sempre defendi que um Ministério que congrega tudo e não dá autonomias a ninguém será sempre um Ministério incapaz de responder a todas as exigências. Mas existem áreas em que o Ministério não pode abdicar das suas responsabilidades, nomeadamente as curriculares e pedagógicas.
Neste campo, uma transferência de competências poderá significar uma desagregação de todo o sistema e por maioria de razão da sociedade. Não consigo conceber um país que não tenha um currículo forte e coeso. Trata-se da coluna vertebral do sistema, se a fragmentamos perdemos a correia de transmissão da nossa identidade e a garantia de acesso igual à educação para todos.
Até poderá existir a possibilidade de inclusão de conteúdos regionais ou mesmo locais, como existe a possibilidade de escolha ou não da disciplina de Religião e Moral, mas terão sempre que ser conteúdos que não coloquem em causa as áreas disciplinares fundamentais que são o garante da evolução social.
Fico no entanto com a sensação que discutir transferências de competências na educação, ou noutras áreas, para as autarquias, sem consolidar um modelo de organização administrativa para o país é prematuro. E sim o nosso modelo administrativo está desadequado e sem as mudanças necessárias continuará a ser um entrave para o desenvolvimento do país.
Ensino Municipal

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Dinheiros públicos ensino privado

Dinheiros Públicos Ensino PrivadoMuitas vezes, quando se discute a existência, em especial o financiamento, do ensino particular e cooperativo e a sua relação com o estado, caímos na demagogia de discutir apenas a qualidade. Devemos financiar o ensino privado porque apresenta melhores resultados e logo uma melhor utilização dos dinheiros públicos ou o estado deve apenas financiar o setor público pois é o garante de uma educação com qualidade para todos os cidadãos. A verdade é que qualidade ou falta dela existe nos dois braços do nosso sistema de ensino e os resultados obtidos são influenciados por um conjunto de variáveis que vão muito para além do financiamento.
Tenho defendido que o referencial de qualidade do sistema educativo deve ser o ensino público. Só o serviço público garante a universalidade de resposta. Só o serviço público permite que a escola dê a resposta mais importante, preparar todos os cidadãos para os desafios de amanhã, independentemente do extrato social de que provêm ou da sua capacidade socioeconómica.
Posto isto, considero que o serviço público pode existir tanto em escolas públicas como privadas, desde que as instituições privadas de educação apresentem uma resposta que a escola pública não dê. Se numa determinada região não existe oferta pública e a única resposta possível é o setor privado e cooperativo então estas escolas devem ser financiadas com critérios semelhantes aos utilizados para o setor público. Só assim se garante que todos os alunos da região tenham o mesmo acesso à escolarização. O mesmo se processa em zonas que tenham escolas públicas e privadas em simultâneo, mas onde a instituição privada não concorra diretamente com o ensino estatal existente.
Tendo em conta os orçamentos apertados com que a educação se vem deparando, o estado não deve retirar verbas do ensino público para financiar o setor privado quando este compete diretamente. E mesmo o argumento de que devemos promover a liberdade de escolha não pode servir de justificação. Se alguém quer abrir uma escola privada numa zona onde a oferta educativa já é suficiente deve sujeitar o seu negócio às regras do mercado e não ser artificialmente sustentado por capitais públicos.
Compreendo e concordo que uma aplicação direta desta visão poderá levar ao encerramento de alguns colégios ou escolas privadas, conduzindo ao desemprego professores e auxiliares de educação que estão atualmente empregados. De acordo com a Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP) este setor possui cerca de cinco mil professores.
Perante esta realidade penso que gradualmente é necessário fazer o ajuste ao sistema, alterando o tipo de resposta e a localização das instituições do ensino particular e cooperativo, nos casos em que seja possível para que se justifique o financiamento recebido ou gradualmente tornar estas escolas verdadeiramente particulares, tanto ao nível da sua gestão como no que respeita ao seu modelo de financiamento.
Em relação aos professores que poderiam perder o seu emprego nestas instituições, a verdade é que a própria AEEP prevê que o natural aumento de alunos que as escolas públicas teriam levaria ao aumento do número de vagas para docentes nessas mesmas escolas, tal como referido no artigo do Diário Digital. É ainda importante referir, para uma melhor reflexão sobre o tema, que os professores do ensino particular e cooperativo têm o seu tempo de serviço contado de forma igual ao setor público e portanto estão em igualdade com todos os outros professores no concurso nacional.
Naturalmente defendo a existência dos dois modelos no nosso sistema de ensino, ambos têm o seu espaço e a sua função, mas naturalmente defendo a saudável coabitação dos dois sistemas, um dependente do estado e o outro totalmente independente, reorganizando o território e a oferta para que ambos sejam fortes e permitam opção de escolha aos pais e aos alunos, sem que exista duplicação de despesa de forma injustificada.
Dinheiros públicos ensino privado

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Edifício Pedagógico

Iniciativa para o Investimento e Emprego (IIE) - Investimento
Iniciativa para o Investimento e Emprego (IIE) – Investimento
Hoje farei apenas um pequeno apontamento sobre um dos projetos que mais condições criou para o futuro da educação, mas também que mais fundos utilizou na busca desse fim. Esta abordagem não pretende justificar abusos ou gastos supérfluos, não pretende caracterizar a Parque Escolar como a salvadora da educação ou sequer como o único caminho para atingir um fim. O que pretendo com este texto é tão simplesmente enquadrar a necessidade que as nossas escolas (pelo menos algumas delas) ainda têm de ser recuperadas e dotadas das melhores condições para a prática letiva, uma recuperação que as transforme num verdadeiro edifício pedagógico.
Passamos horas, dias, meses, anos a discutir a influência da pedagogia nas aprendizagens dos nossos alunos. E a escola (edifício) não é condição decisiva para uma boa aprendizagem?
Tal como as capacidades pedagógicas de um professor têm uma influência decisiva no resultado dos alunos, também as condições que uma escola apresenta são essenciais para a promoção de um ensino de qualidade. E não podemos exigir os mesmos resultados a todos se damos ferramentas diferentes a cada um. Se é verdade que comparar por exemplo uma escola no Parque das Nações com a da apelação é uma injustiça tremenda, por todos os condicionalismos e especificidades que ambas têm. Tão pouco é justo que se compare por exemplo o Liceu Camões com a Secundária Padre António Vieira. Neste caso pela modernização que uma sofreu e que a outra ainda reivindica.
Sei que o esforço de investimento na modernização das nossas escolas foi muito forte, muitas delas estavam completamente degradadas e outras necessitavam de modernização urgente, mas o trabalho foi parado e não ficou terminado. Persistem casos de escolas que precisam de intervenção urgente, quer do ponto de vista das condições didáticas proporcionadas aos alunos, para potenciar as suas aprendizagens, como, em alguns casos, na criação de espaços adequados e seguros para a prática letiva.
Não pode ser o estado o responsável pela promoção de desigualdades no acesso dos alunos a infraestruturas de qualidade, uns não podem ter escolas com todas as condições e outros continuarem em escolas que não lhes oferecem resposta às necessidades.
Estas são algumas das razões por que se torna urgente que o governo relance um projeto nacional que finalize a modernização do parque escolar. Com objetividade, eficiência e eficácia.
Edifício Pedagógico

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Exames, o dilema do sistema

Conselho de Escolas
Exames Vs. provas de aferição uma questão que continua a provocar muita discussão e claramente divide as opiniões entre os responsáveis educativos. Ainda hoje conhecemos a opinião do Conselho das escolas e que vai no sentido de se alterar o modelo agora introduzido, criando um misto entre os exames e as provas de aferição.
Curiosamente esta posição surge no dia seguinte à divulgação de um relatório da OCDE que coloca a avaliação no centro da discussão ao apontar os chumbos como a principal causa de insucesso e de abandono precoce do sistema educativo.
Não quero aqui veicular, novamente, a minha opinião sobre os exames e as consequências que se verificaram com a sua implementação ou o que muda com a introdução do modelo idealizado pelo ministro Tiago Brandão Rodrigues.
O Conselho de Escolas apresentou uma proposta que vem juntar um pouco dos dois sistemas, apontando um modelo híbrido. Perante o cenário internacional que nos foi dado a conhecer pelos testes PISA e quando os nossos resultados são abaixo da média europeia, embora com resultados positivos na convergência que fizemos entre 2003 e 2012, não posso deixar de questionar se este não será tempo de estabilizarmos as políticas educacionais.
Até posso admitir a reivindicação do Conselho de Escolas de só se alterar o sistema de avaliação externo no final do ano, mas não posso concordar com a visão relativa aos exames, em especial quando acabamos de conhecer os resultados da avaliação ao nosso sistema de ensino. Parece-me que um modelo que permita a aferição das dificuldades em tempo útil e que permita aos professores ter o tempo necessário para as corrigir, como o que foi agora implementado, permitirá uma melhor evolução dos resultados escolares dos alunos. Em vez de obrigar os professores a trabalhar para os resultados nos exames parece-me mais pedagógico trabalhar para suprir as dificuldades com a finalidade de consolidar conhecimentos.
Exames, o dilema do sistema

Programas, para quê mudar?

Para quê mudar os programas
Associação dos Professores de Matemática veio pedir ao governo que suspenda o programa da disciplina. De acordo com a Associação, o programa é mau e praticamente impossível de leccionar na sua totalidade. De momento o novo programa para o Secundário apenas está a ser aplicado no 10º ano, sendo que os professores mostram grandes preocupações que venha a ser aplicado ao nível do 11º e 12º anos. Mesmo ao nível de outros ciclos de ensino o problema do número exagerado de metas a atingir tem sido recorrentemente apontado.
Fui da opinião, à data, que os programas introduzidos pelo Ministério da Educação e pelo ex. Ministro Nuno Crato eram desajustados da realidade da nossa escola e tinham sido implementados de forma brusca. Por esta mesma razão, compreendo o pedido agora feito. No entanto, sou da opinião que não é positivo introduzir alterações a meio do ano lectivo nas questões curriculares.
Se queremos estabilidade, temos de sentar à mesa aqueles que desenham os programas, quem os aplica e elaborar um documento estruturante e duradouro. Produzir programas disciplinares novos sem a existência de um fio condutor (Currículo Nacional) coeso e claro, unanimemente aceite e que balize o que deve constar no programa de cada disciplina, em cada ciclo, de forma inequívoca, é começar a construção da casa pelo telhado.
É verdade que não podemos ter um programa impossível de leccionar no secundário, como acontece no caso da matemática, mas também não podemos aceitar que o programa de primeiro e segundo ciclos se confundam em algumas metas. Sabemos que são estádios diferentes das aprendizagens e estamos perfeitamente conscientes que uma má iniciação no primeiro ciclo é meio caminho para ter dificuldades no resto do percurso e engrossar as fileiras do abandono escolar precoce.
Quando se exige que o professor leccione no 1.º ciclo, por exemplo, os pronomes, os advérbios, os tipos de frase ou os tipos de texto, tudo matérias que voltam a ser faladas nos ciclos seguintes, estamos a desvalorizar o processo de consolidação da leitura e da escrita, na fase em que deve ser adquirida, fazendo com que uma parte significativa dos alunos apresentem lacunas graves quando mais tarde precisam de verdadeira autonomia e competência linguística para a interpretação de enunciados.
No entanto, e mesmo compreendendo a urgência da situação, penso que é o momento indicado para que a comunidade educativa, sem medidas avulsas assentes em necessidades do momento, redesenhe as políticas educativas de forma a produzir um modelo que promova a estabilidade e a qualidade.
Programas, para quê mudar?

O que faz um aluno ter maus resultados?

Esta é a pergunta a que milhares de profissionais de educação procuram responder no seu dia-a-dia. Embora a OCDE afirme que Portugal está entre os 6 países, dos 64 analisados, com piores níveis de empenho dos professores nas suas escolas. E que a escola (leia-se também, espectativas e trabalho que o professor faz com os seus alunos) terá uma influência de cerca de 35% nos resultados. Eu ainda sou daqueles que acredita que a grande maioria dos Assistentes Operacionais, dos Professores, dos Diretores e de todas as pessoas que trabalham para a evolução do sistema educativo tem como centro das suas preocupações profissionais o aluno.
Pelo gráfico que acompanha esta peça, podemos verificar que os resultados dos nossos alunos continuam a estar abaixo da média da OCDE, o que nos deve preocupar e levar a trabalhar no desenvolvimento de estratégias para convergir mais rapidamente. Verificamos também que a principal causa dos maus resultados em Portugal, e também noutros países referidos no estudo, é a reprovação prévia. Um aluno que chumba tendencialmente piora os seus índices escolares após a reprovação.
Perante esta evidência sou levado a concluir que uma avaliação punitiva e condicionadora das estratégias de ensino, extremamente formatada, como a que existiu nos últimos anos é nociva para o sistema. Exigir a um coxo que corra os 100m tão depressa e da mesma maneira que uma pessoa sem problemas nas pernas só terá como consequência a sua frustração, nunca levará a que consiga correr como os outros. Não tenho dúvidas que o resultado final de alunos com características diferentes poderá ser o mesmo, mas temos de dar autonomia ao professor para construir o caminho para que cada um lá chegue e isto significa compreender que é também competência do professor aferir a evolução do seu aluno e do caminho trilhado. Não podemos continuar entre os 10 países com o maior índice de reprovações.
O que faz um aluno ter maus resultados
Mas mesmo perante estes resultados, preocupantes na minha ótica, existem dados que constatam o bom caminho que percorremos no passado, em especial entre 2003 e 2012. No decorrer deste período ficamos entre os 9 países que mais reduziu a percentagem de alunos com resultado abaixo de 2 nos testes PISA (resultado negativo e que revela impreparação para a exigência da sociedade). Em linha com a Alemanha, a Itália ou a Rússia.
Mas tão importante como perguntar “o que faz um aluno ter maus resultados?” é perguntar quais as consequências para os alunos e para o país destes maus resultados?
É na resposta a esta pergunta que se verificam as consequências dramáticas de insistirmos em modelos desadequados da resposta que queremos obter. Não basta olhar para os anos 60 ou 90 do século XX, ver o que funcionou e tentar reproduzir. É necessário compreender que o mundo que envolve a escola mudou e exige uma resposta diferente do sistema educativo.
O fracasso escolar tem consequências graves para o individuo, levando a uma deficiente preparação pessoal e social condicionando a sua capacidade de resposta perante as exigências que vai encontrar no momento em que abandona a escola e ao longo da sua vida. Mas o problema não se estingue nas consequências pessoas, o país é profundamente marcado na sua capacidade competitiva a longo prazo. Se uma fatia significativa da sua população abandona o sistema educativo de forma precoce então a capacidade de no futuro se criarem os alicerces de uma sociedade moderna, dinâmica e tecnologicamente evoluída fica profundamente comprometida, sem contabilizar o investimento que é feito nas pessoas que abandonam o sistema precocemente e que assim se perde.
Consulte aqui o artigo:
Ser rapariga, imigrante e ter chumbado contribuem para fracassar a Matemática
O que faz um aluno ter maus resultados?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Burnout e Depressão uma ameaça à ação!

Burnout e Depressão uma ameaça à açãoFoi hoje revelado um estudo que apresenta dados sobre o bem-estar dos professores, assim como a sua realização profissional, e que faz soar o alarme para o nosso sistema educativo. Um terço dos professores do básico e do secundário sofrem de Burnout (exaustão emocional e ausência de sentimento de realização profissional) e entre 20 a 25% sofrem de stress, ansiedade e depressão.
Para se perceber a dimensão do problema é importante comparar as realidades. As outras profissões em Portugal apresentam uma taxa de cerca de 15%, por comparação com os 30% dos professores. E nos outros países esta taxa, na educação, varia entre os 15 e os 25%, de acordo com o estudo, colocando Portugal no topo das preocupações e afirmando a profissão docente como uma das de desgaste mais rápido.
Podemos num primeiro impulso dizer que estes professores não podem lidar com os alunos até estarem bem. Sim, admito que poderia ser uma abordagem, mas que sistema sobrevive se lhe retirarmos de um dia para o outro 30% dos seus efetivos, 30% daqueles que mais se esforçam para o fazer andar? Nenhum!
Penso que estes números nos obrigam a pensar de uma forma bem mais profunda e estruturada sobre este problema. É preciso identificar as causas e implementar as soluções adequadas.
Verifica-se que os professores com mais tempo de carreira são também os mais afetados. Esta realidade levanta, necessariamente, a questão da idade da reforma. Será positivo para o sistema de ensino obrigar a que os professores se mantenham em funções até aos 66 anos? Assumindo que sim, que condições terão estes profissionais para continuarem um trabalho tão exigente e desgastante durante tantos anos e de que forma podem continuar a ser uma mais-valia para os alunos? E o currículo? E a avaliação? E o número de alunos por turma? E a indisciplina? E a carga burocrática? E os docentes que não estão no quadro? Será que estamos a desenvolver um sistema de ensino estável e forte obrigando os professores a mudar de escola todos os anos, sem que consigam estabilizar familiar e profissionalmente?
No início da carreira até poderá ser positivo para o docente ter a possibilidade de estar um ano no norte, outro no algarve ou ainda nas ilhas. É um acumular de experiências de vida que servem para enriquecer a nossa prática e para nos tornar mais aptos a lidar com o dia-a-dia, mas ao fim de 15 ou 20 anos de serviço continuar sem saber como vai ser a vida no ano letivo seguinte apenas serve para promover a instabilidade na pessoa.
É comumente aceite que a estabilidade emocional do docente é fundamental para um bom processo de ensino/ aprendizagem. O professor tem o dever de lidar com a multiplicidade de situações com que é confrontado diariamente na sala de aula e manter a clareza de espírito necessária para tomar as decisões corretas. É imprescindível que o professor consiga gerir as emoções e atitudes dos alunos canalizando-as para as dinâmicas do ensino, mas para tal e em primeiro lugar, o docente tem que ter a capacidade de lidar de forma positiva com as suas próprias emoções.
Quantos pais não se questionaram já sobre se a sua atitude com o filho foi a mais correta, se não terão sido demasiado bruscos ou desadequados, só porque estavam chateados ou mais cansados. Olhemos então para a mesma situação, em que é necessário agir, mas multiplicada por 30 crianças ou jovens, ao mesmo tempo, perante um professor que sofra de Burnout ou de depressão.
Variadas são as causas que nos trouxeram até este ponto, e múltiplas serão as possibilidades de resposta. Precisamos de olhar de frente para o problema, de forma séria e descomplexada e dizer de inequivocamente qual o caminho que queremos para o ensino e, verdadeiramente, o que é que se quer dos professores.
Consulte aqui o artigo:
Quase um terço dos professores do básico e secundário estão em burnout
Burnout e Depressão uma ameaça à ação!

Investir é preciso

c37ec0bdd701bb94a1d4332ad20785cf
O que escrevo hoje vem mais em jeito de desabafo, provocado por uma discussão que tive, sobre um artigo que reflecte a opinião de um antigo Presidente da República, e que aqui vos deixo.
Nessa discussão, um amigo meu dizia-me que ainda se esbanjava muito dinheiro em educação, que o país não comportava gastar mais dinheiro com o Ministério e que a devolução de verbas hoje anunciada era disso um exemplo.
Qualquer bom gestor sabe que para colher frutos é preciso investir. Naturalmente é necessário ser criterioso nos investimentos e saber distinguir o que pode ser uma aposta ruinosa ou uma aposta com forte possibilidade de retorno. Jorge Sampaio já afirmou por diversas vezes a sua convicção de que Portugal necessita de mais investimento na educação. Nomeadamente tendo em conta a contracção económica e social que se sentiu nos últimos anos. Não poderia estar mais de acordo com o antigo Presidente da República.
Em textos anteriores já aqui elenquei alguns dos problemas que prejudicam o nosso sistema educativo. Problemas que todos nós sentimos no dia-a-dia das escolas. Muitos deles podem ser resolvidos com alguma reorganização dos serviços, mas desenvolver um modelo que resolva gradualmente os problemas implica uma assunção por parte do estado de que a educação não é uma despesa, mas um investimento, que tem o seu retorno no médio e longo prazo. Implica a consciencialização de que o dinheiro gasto em educação não é dinheiro mal gasto.
Hoje discute-se a devolução do dinheiro, gasto com a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), aos professores. Não pretendo analisar aqui se a prova deve ou não existir, isso já foi sobejamente discutido e o Tribunal Constitucional já decretou a medida inconstitucional. Devemos é refletir se esta devolução significa ou não por cobro a uma injustiça e se esta é uma forma de investimento na valorização dos nossos professores?
Portugal é hoje dos países da União Europeia que menos gasta em educação, curiosamente a par com a Grécia. A aposta que fazemos poderá ser dispendiosa e desnecessária se decidirmos que queremos um modelo de sociedade assente nos baixos salários e na fraca especialização, aí até podemos aceitar que temos licenciados e estudantes a mais. Podemos até defender que não precisamos dos professores que temos e reduzir o seu número. Mas se nos queremos integrar no grupo dos países mais desenvolvidos, temos de reforçar a aposta na educação, valorizando os ativos existentes e criando as condições necessárias para qualificar as gerações de forma a dar resposta às necessidades e exigências do país.
Investir é preciso

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mas afinal para que serve a escola?

Para que serve a escola
Hoje, na minha viagem pela imprensa diária, deparei-me com o projeto de musicoterapia “De que som sou feito?”, que está a ser implementado em  escolas de nove agrupamentos do concelho de Santa Maria da Feira.
Imediatamente captou a minha atenção por se tratar de um programa para crianças e jovens com necessidades educativas especiais (ou não fosse essa a minha área de formação), que frequentam do 5º ao 12º ano.
Ao ler o artigo fiquei deliciado por constatar os moldes em que está a ser aplicado, e por reconhecer que o caminho ali seguido é na verdade o movimento que o nosso sistema de ensino precisa de fazer na sua globalidade. “Nestas sessões, em que o limite é de oito alunos na mesma sala, não há receitas. É preciso estar disponível e atento ao que acontece a cada segundo. “É um espaço de partilha. Falamos dos amores e desamores, situações de casa, improvisamos letras e vem ao de cima o que se pensa. A música é um veículo que permite essa exposição emocional (…) Temos de conhecer o grupo como ele é. As sessões têm um carácter dinâmico e muito livre e é nessa liberdade que os meninos trazem muita coisa”. É preciso, portanto, muita atenção para decidir o que fazer. Olhar, sentir o grupo, ver como as coisas estão e dar seguimento consoante as necessidades. Temos de pensar no bem-estar deles”.
As aprendizagens são um processo de vinculação emocional e requerem disponibilidade dos intervenientes na sua multiplicidade de funções no processo de ensino/ aprendizagem. A escola expositiva em que o professor se apresenta perante o grupo e debita é uma realidade que, embora ainda muito presente, representa um sistema de ensino cristalizado e que não se adequa às dinâmicas e exigências sociais. A palavra “significância” tem de assumir a posição central no sistema de ensino. Não pode ser uma significância imposta por alguns para todos bebermos.
De nada serve dizermos que a matemática é importante se depois o que é ensinado não se traduz de forma visível na prática do dia-a-dia. De nada serve obrigar um aluno a estudar Francês, porque foi outrora muito importante, pois o aluno até entende que o Mandarim lhe fará falta no futuro. Na verdade temos as escolas povoadas de crianças e jovens que se questionam – mas afinal para que serve a escola?
Para estes a resposta é, tão simplesmente… para nada!
Durante seis anos (o tempo que estive num colégio de educação especial e em que os alunos que chegavam traziam as cicatrizes de uma escola que não lhes dava resposta e de uma sociedade que os afastava) todos, sem exceção, faziam esta pergunta à chegada e invariavelmente o meu principal trabalho de início de ano era atribuir significância ao tempo que estes estavam na escola (nas salas, nos corredores, com os colegas, com os assistentes, ao almoço, no recreio…). Pouco a pouco, com o decorrer do ano e o passar do tempo, as cicatrizes esbatiam-se até aos limites da possibilidade e a raiva, as defesas e a angústia davam lugar à curiosidade e à postura de trabalho.
Também aqui, a musicoterapia assumia e assume um papel central no desbloquear das emoções e na construção de um eu mais organizado e disponível para aprender. Os alunos sentem a pertença a algo e reconhecem a significância do que lhes damos. Ainda este fim-de-semana um antigo aluno me dizia, por correio eletrónico e com um discurso orgulhoso: “professor estou a fazer o meu curso, é difícil, mas eu consigo”. Claro que consegues, por muitas dificuldades que tenhas, só não consegues o que não quiseres e cá estaremos nós para o(s) aplaudir depois de todo o trabalho na superação das suas dificuldades.
Neste pequeno mundo insano, que muitos podem interpretar como idílico pelas minhas palavras, mas que eu tive e tenho o privilégio de viver, não existe indisciplina, má educação ou absentismo, existe uma inquietude constante de todos os intervenientes (professores, assistentes e alunos) para procurar o caminho e construir a significância de viver, primeiro a escola e depois a sociedade, em cada um de nós.
Consulte aqui o artigo citado:
O tambor que imita o mar acalma crianças e jovens que precisam de atenção especial
Mas afinal para que serve a escola?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pacto de (regime?) confiança!

Pacto de confiança
Considero que os últimos anos têm sido de retrocesso no que respeita à estabilidade do sistema educativo português, e a única forma de reverter o processo é com um pacto de confiança, como gosto de chamar, ou um pacto de estabilidade, como refere Maria do Carmo Vieira. A velha máxima popular “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão” poderá ser vista como a fonte de todos os males. Redução das verbas inscritas em orçamento (estamos com níveis de despesa do estado em educação apenas comparáveis com os realizados há mais de uma década), aumento do número de alunos por turma, aumento das funções do professor para além das didáticas e pedagógicas, redução do número de professores “necessários” no sistema (em 2004 existiam 160 mil professores no ensino público e em 2014 estava reduzido a 120mil) e poder-se-ia continuar a elencar os problemas que se sentem no dia-a-dia das escolas fazendo sempre uma associação financeira.
Penso no entanto que o problema é mais profundo. Acredito que a questão financeira, com o peso que tem e que não se pode retirar da equação, é apenas o pretexto e não a verdadeira raiz dos problemas.
Quer se queira quer não, a escola é um reflexo da sociedade, como tantas outras áreas, mas com uma especificidade única. O que a escola recebe da sociedade tem a capacidade de ou perpetuar ou moldar para as gerações futuras. O que a torna uma caixa-de-ressonância poderosíssima e com a qual é necessário lidar com muita cautela, sob pena de hipotecarmos o futuro de gerações.
É aqui que acredito que reside a raiz da instabilidade que se sente no sistema educativo português. O nosso país aprofundou nos últimos anos o combate ideológico entre um modelo mais liberal ou mais social de sociedade e as linhas orientadoras do Ministério da Educação espelharam essa realidade. No anterior governo do Partido Socialista assistiu-se à disseminação da inclusão e o consequente investimento no sistema público de educação, instruindo-o para dar resposta a este desígnio, assistiu-se ainda ao forte investimento no parque escolar, diminuindo os apoios ao sector privado. No anterior governo do PSD/CDS assistiu-se ao desinvestimento na educação pública e ao surgimento da ideia de que as melhores escolas se situam no sector privado. O expoente máximo desta evidência são o aprofundar dos rankings como ferramenta de avaliação do sistema e que comparam todas as escolas por igual, sejam elas do setor público ou privado.
Eu, durante seis anos, dei aulas numa instituição de Educação Especial, com alunos extremamente carenciados e suportada financeiramente pelo estado, mas que do ponto de vista jurídico é considerada uma escola privada e antes, fui docente, durante quatro anos, num colégio em que a população era constituída por filhos de famílias diferenciadas. Acreditem que as práticas que encontrei em ambas as escolas eram de uma preocupação com os alunos e com o seu percurso que me permitem afirmar que o lucro não é o único objetivo de todo o ensino particular. No entanto reconheço que se o Ensino Particular ou Cooperativo não tiver esse lucro dificilmente subsiste sem o apoio público, o que pode provocar um enviesamento das práticas das instituições.
É por este facto que eu sou um defensor de que o sistema de educação pública se deve afirmar como o referencial de qualidade assim como deve ser o espaço de investimento privilegiado pelos governos.
Posto este enquadramento, penso que o caminho correto para o sistema de ensino em Portugal é o equilíbrio entre estas duas visões. O sistema público de educação deve ser a linha condutora do país em matérias de educação, mas da mesma forma que defendo que o estado não deve ser o suporte financeiro do Ensino Particular e Cooperativo também defendo que não compete ao governo matar a iniciativa privada.
Assim sendo, a Escola necessita de um “pacto de confiança”, entre as forças políticas do país, que permita traçar um rumo para a educação que seja transversal aos governos que se vão sucedendo e que ponha termo a esta luta artificial entre os dois braços do mesmo corpo. É necessário que se balizem as coisas e que se dê espaço para a coabitação, mantendo a essência daquilo que cada um é. Um independente e autónomo a todos os níveis, o outro ligado ao estado e às suas orientações, mas ambos devidamente fiscalizados.
Sem este rumo de longo prazo que balize a atuação nas linhas essenciais estaremos sempre dependentes ou da inspiração económica, ou da escola filosófica, ou das vontades momentâneas de cada governo.
Pacto de (regime?) confiança!

Eu reprovo, tu reprovas, ele reprova...

Avaliação dos alunos
Quando se discute a avaliação dos alunos em Portugal a ideia corrente é que é um momento imprescindível do percurso escolar. Não poderia estar mais de acordo com esta premissa inicial. Sou, aliás, um fundamentalista da avaliação. Não considero ser possível um sistema de ensino, que apresente bons resultados, sem avaliação.
O que não podemos confundir é o facto de a avaliação existir com a forma como a utilizamos.
Só porque defendo que os alunos têm de ser avaliados não significa que acredite que momentos de avaliação estanques sejam os melhores indicadores das aprendizagens. O facto de ser favorável à avaliação não faz de mim um defensor dos exames enquanto pedra angular da avaliação.
A realidade dos estudos mostra que o modelo de avaliação punitiva que temos tido em Portugal (onde incluo os exames) não se traduz numa melhoria dos resultados. Os alunos são avaliados por testes ou exames, trabalham com esse objetivo e estingue-se nesse momento a motivação do estudo. Como resultado, temos taxas de reprovação altíssimas (cerca de 11% no básico e 22% no secundário) e os alunos a questionarem-se para que serve a escola.
Para agravar a situação, o chumbo não representa uma mais-valia na melhoria dos resultados. Apenas 14% dos alunos que reprova tem sucesso no ano seguinte.
Perante estes dados, a conclusão que posso tirar é que uma avaliação preventiva é essencial para podermos dar resposta aos problemas identificados, solucionando-os de forma a corrigir os percursos educacionais logo quando surgem as dificuldades.
Paralelamente, é fundamental motivar os alunos para estarem na escola e para aprenderem. Para o fazer é essencial clarificar a importância do estudo, de forma concreta, mas também adequar o percurso do aluno às suas aspirações de futuro.
Consulte aqui o artigo:
Eu reprovo, tu reprovas, ele reprova...

Parque Escolar… o papão!

Parque Escolar
No imaginário de todos nós a Parque Escolar aparece como um papão pronto para engolir os fundos públicos e deixar novamente os cofres do Ministério da Educação vazios.
Tal como na nossa infância, onde muitos tínhamos medo daquele bicho imaginário que habitava ora dentro do roupeiro ora debaixo da cama, mas que com o crescimento acabou por desaparecer. Também em relação à Parque Escolar devemos ter essa preocupação de deixar que o tempo nos mostre os verdadeiros resultados do investimento. Mas seria necessário que algumas obras tivessem o investimento que tiveram? Acredito que não, penso que poderíamos ter alcançado o mesmo fim com um investimento mais reduzido ou então será apenas o meu lado mais “forreta” a falar.
Confesso que quando oiço falar em investimento na Parque escolar fico um pouco apreensivo. Talvez seja o reflexo de alguns gastos supérfluos ou mesmo despropositados que todos conhecemos e que sobrecarregam o estado com mais despesa. Talvez seja o facto de nos últimos anos ter apertado do cinto de tal maneira que só de ouvir falar em gastar um pouco de dinheiro me faça confusão. Talvez seja o facto de a comunicação social mostrar sempre os maus exemplos deste projeto. Ou talvez seja mesmo do meu feitio ser demasiado contido no que respeita a despesas.
Depois da memória do papão inicial, que me assaltou quando li a notícia do “Negócios Online” a afirmar que o governo vai transferir este ano mais 100 milhões para a Parque Escolar, procurei fazer o exercício de tentar perceber por que existe esta empresa pública.
Esta empresa foi criada porque as nossas escolas, que foram construídas no pós 25 de Abril, ou ainda antes, para dar resposta à massificação do ensino em Portugal, tinham uma esperança média de vida útil de 30 anos, muitas eram prefabricadas e quase todas precisavam de intervenções permanentes e dispendiosas para as manter com as condições mínimas de funcionamento. E passados 40 anos de funcionamento pouco tinha sido feito para as tornar apelativas, adequadas e funcionais para as exigências dos tempos que vivemos.
Quantos de nós, seja enquanto professores ou enquanto alunos não passamos por salas de aula sem o mínimo de condições para a prática educativa?
Era portanto imprescindível para termos um ensino de qualidade em Portugal um investimento forte na área das infraestruturas escolares e desse ponto de vista o projecto foi muito importante. Agora que o investimento está feito ou em vias de conclusão, que se paguem as escolas, que nos sintamos integrados no nosso local de trabalho e que possamos tirar o melhor proveito das condições que estão à nossa disposição.
Parque Escolar… o papão!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Público Vs. Privado?

O ensino público em Portugal tem sido, e deverá continuar a ser, o referencial de qualidade do sistema educativo. Só uma estrutura que receba todos os alunos de forma indiscriminada, e mesmo assim consiga manter a exigência e a resposta que a escola pública dá, pode ser vista como o objetivo a superar por todas as escolas, publicas ou privadas.
No entanto, o Governo deve reconhecer que existem áreas especializadas assim como algumas regiões onde a oferta pública escasseia ou é inexistente. Aqui, nestes casos muito concretos em que o Ensino Particular e Cooperativo representa um verdadeiro serviço público, considero que é dever do estado contribuir para a manutenção do serviço como se de uma escola pública se tratasse. Não falhando os seus compromissos, sejam eles de ordem financeira ou logística.
Comecei a minha carreira num colégio privado, um colégio com especificidades difíceis de encontrar numa escola pública e que, ao contrário do que costuma ser apresentado em relação ao ensino particular, presta um serviço social e humano de grande importância para as populações que serve. Tal como neste caso, também a grande maioria dos conservatórios, embora numa outra vertente, apresentam um serviço que é uma mais-valia para a formação e crescimento académico dos nossos jovens.
Nesse sentido, não pode ser o estado a promover a asfixia que culminará com o encerramento destas instituições. Estes alunos não têm alternativa, ou estão nestas escolas ou são impedidos de seguir o seu sonho. Sejam estudantes do ensino artístico, no caso dos conservatórios, ou simples estudantes que não têm uma resposta pública na sua área de residência ou para as suas características.
A regularização das dívidas a conservatórios ou outras instituições de ensino era uma urgência, e ainda bem que se caminha para a sua regularização. Como referi anteriormente, o estado deve cumprir as suas obrigações. Fiscalizar muito bem o que é feito em todo o sistema de ensino, mas ser a pessoa de bem que exige que cada um de nós seja.
Público Vs. Privado?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A falta que a família faz



O Governo inscreveu nas Grandes Opções do Plano para 2016-2019 a redução da carga disciplinar para os alunos do ensino básico. Este é um tema que tem pontos de reflexão diversos e que permitem enquadrar a questão de forma variada.
Por um lado, podemos abordar o tema colocando o enfoque na criança. Aliás aquele que me parece ser o ângulo correto para o fazer. A escola existe, no meu entendimento, para servir e preparar as crianças e jovens o melhor possível para o amanhã. Mas esse ângulo já está perfeitamente enquadrado num artigo com o qual concordo na íntegra e que pode ser lido aqui.
Por outro, podemos olhar para a redução da carga letiva pelos olhos dos pais e das famílias. E das dúvidas que esta redução pode levantar: Se o meu filho não tem tantas aulas onde é que o vou pôr? Como é que os meus filhos vão passar tantas horas sozinhos? Eu não posso faltar ao trabalho para estar a tomar conta dele! São apenas algumas questões que surgem no imediato.
Recentemente, em conversa com um amigo com responsabilidades autárquicas na área da educação, discutíamos a redução da carga horária nas escolas, o que é um pouco diferente da redução da carga disciplinar, e a primeira coisa que me disse foi: “Já pensaste no impacto que essa medida teria na organização das famílias portuguesas?
Eu compreendo estas e outras preocupações que as famílias colocam, mas não posso deixar de afirmar que a componente letiva deve ser devidamente ajustada à evolução da criança e respeitar as suas necessidades. Um aluno do 3º ano do 1º ciclo, com a introdução do inglês na componente disciplinar, é sujeito a 27h semanais enquanto um estudante do 12º ano tem 23h de carga letiva.
O acompanhamento das crianças deve ser feito, em espaço escolar ou não, de forma a permitir uma boa articulação com os horários de trabalho das famílias. Para tal existem inúmeras ferramentas a que podemos recorrer e que permitem perpetuar a permanência da criança na escola até à exaustão. Por exemplo: as Atividades de Enriquecimento Curricular (AECs), as Atividades de Animação e Apoio à Família (AAAF), a Componente de Apoio à Família (CAF), os ATL, etc.. Mas não nos podemos nunca abstrair dos malefícios de a criança não estar com a família, de pedirmos que a escola para além de ensinar também eduque.
Quando andava no 1º ciclo lembro-me do meu pai estar a conversar com a professora e dizer-lhe algo deste género: Ensine o meu filho pois eu não o consigo fazer tão bem como a professora, mas não se preocupe que eu trato da sua educação.
A falta que a família faz